quinta-feira, 10 de maio de 2012

Questões enviadas pelos alunos relacionadas aos textos

Felmlee, D. I. Interaction in Social Networks (2006). In Delamater,J. (Ed.) Handbook of Social Psychology (pp.389-409). New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers.


ALLAN, Graham. Social networks and personal communities. In A.L. Vangelisti, & D. Perlman. The Cambridge Handbook of Personal Relationships, 2006 (p.657-671).

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Quais situações ou fatores podem ser considerados como os mais influentes para o individuo, na sua decisão de reconfigurar a sua rede de relacionamentos ou simplesmente sair de uma ou entrar em outra?


Que fatores exógenos são capazes de influenciar nas mudanças das decisões do grupo de acordo com o modelo dos efeitos da rede?

Porque as relações entre as pessoas devem ser abordadas dentro de um determinado contexto?

As redes sociais concorrem para a estratificação da sociedade. Que beneficios se pode esperar para os dias de hoje?

Nos conteúdos referentes a Grupos, Coletividades e Redes Sociais fiquei propenso a fazer correlações com os textos das últimas aulas, em especial o que ficou sob a minha responsabilidade para apresentação. Desse modo, minha primeira questão decorre das possibilidades e limites de aproximação das ideias do texto com a Teoria das identidades Sociais.

E, no tocante ao desenvolvimento das dinâmicas intergrupais, como reconhecemos / avaliamos as possibilidades de inter-relação entre os conceitos de centralidade, transitividade e cliques (presente no texto), e os comportamentos sociais relacionados à diferenciação positiva (oriundo da Teoria das Identidades Sociais)?

A abordagem das redes sociais foca naquilo que se chama de microrrelações, algo que, muitas vezes, é visto como algo menor nas ciências humanas sob o argumento de que as ações humans estão inseridas em um contexto maior. Neste sentido, seria insuficiente estudar as relações humanas a partir das microrrelações. Mas será que certos resultados obtidos de estudos que investigam as microrrelações não refletem ou, até mesmo, podem servir de meios para a revisão e a modificação das macrorrelações?

Segundo os resultados das pesquisas na abordagem das redes sociais, fatores raciais, gênero e idade continuam exercendo influência nas relaçãoes, assim como nos resultados de estudos de outras abordagens da psicologia social. Isso não seria mais uma evidência de que relações mais amplas e básicas também poderiam ser entendidas a partir das microrrelações?

Considerando a abordagem "Social Convoy" (que é referente as transferências e como o próprio Antonucci coloca que são estudos vindo da gerontologia e das temáticas sobre envelhecimento e tem foco em perceber em como os indivíduos articulam-se cercados por pessoas bem proximas e importantes para elas e que tenha uma influencia critica na sua vida e bem estar), há alguma relação conceitual com a transferência psicanalítica? 

Dentro das subareas do trabalho empírico, sobre a interação das redes sociais, o "Social Support", por ser aspecto das redes sociais que influência na saúde dos indivíduos, inclusive mental, viria a ser utilizada enquanto uma estratégia de enfrentamento a discriminações e exclusões sociais, por exemplo? 

Qual é a importância de se compreender os processos de alterações das redes sociais (membros, centralidade e densidade)?

Uma subárea da perspectiva de redes sociais é a relação diádica. Quais são as reações positivas e negativas que esse tipo de relação pode ocasionar?

De que maneira as transições no ciclo de vida impactam em mudanças nas redes sociais? 

Como, atualmente, o advento das redes sociais midiáticas, influenciam na configuração das comunidades pessoais dos sujeitos? 

Como se dá a relação entre os três princípios da perspectiva das redes sociais e a abordagem da Psicologia Social?

Fichamento - Redes Sociais

Felmlee, D. I. Interaction in Social Networks (2006). In Delamater,J. (Ed.) Handbook of Social Psychology (pp.389-409). New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers.

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Por Rodrigo Nejm e Felippe Thomaz


Sobre a autora:
DIANE H. FELMLEE é professora no Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, Ph.D. pela University of Wisconsin. Suas pesquisas estão relacionadas aos temas: psicologia social, relacionamentos íntimos, processos grupais e amizade; sociologia dos gêneros; matemática sociológica, redes sociais e metodologia quantitativa.

Objetivos do capítulo: O capítulo busca abordar as contribuições da perspectiva teórica das redes sociais na Psicologia Social com abordagem mais próxima da psicologia social sociológica. Ao focar o estudo nas relações estabelecidas nas redes busca-se compreender as estruturas dos laços e a dinâmica das interações, contribuindo no debate sobre as relações indivíduo-sociedade e buscando ultrapassar a lacuna micro-macro na psicologia social. Na argumentação desenvolvida a autora discute os princípios da perspectiva das Redes Sociais, ilustra conceitos básicos das Redes Sociais, apresentada achados de pesquisas com grupos e na relação diádica para concluir com apontamentos sobre a agenda de pesquisa.

PRINCÍPIOS DA PERSPECTIVA DAS REDES SOCIAIS
1- A perspectiva Redes Sociais dá enfase às relações, aos laços, entre os atores. Diferentes tipos de relações são pontos de partida para pesquisa social;
2 - O comportamento dos atores é interdependente em relação aos demais atores da rede social;
3- O comportamento individual é influenciado pelo ambiente da rede: a rede social é um determinante básico dos comportamentos.

CONCEITOS DAS REDES SOCIAIS
Tamanho: não é tão simples de mensurar a extensão da rede. Há a Rede composta por membros que são percebidos como significantes, chamada rede psicológica, e a rede composta pelos membros efetivamente em interação rede interativa.
Densidade: proporção de ligações entre os atores em relação ao total possível.
Força: O volume de ligações entre os atores da rede pode variar em intensidade. Quando poucas ligações ou ligações indiretas entre os membros há "fracas ligações" que conectam os atores entre as redes e as diferentes redes.
Panelinha: Grupo exclusivo no qual todos tem relações com todos, formato fechado e mais restrito das ligações.
Centralidade: Um ator central é aquele que está envolvido em muitas ligações na rede e possui posição.
Transitividade: Rede transitiva ou intransitiva está relacionada à ligação entre os atores.
Equivalência: Dois atores são Estruturalmente equivalentes quando possuem as mesmas ligações com os demais atores da rede.

GRUPOS E COLETIVIDADES
As Pesquisas com grupos, comunidades e permitiram ampliar a teoria da rede social na perspectiva da Psicologia Social. Os conceitos destacados:
1) Transitividade e equilíbrio
2) Equivalência
3) weak ties -laços fracos
1) Transitividade e equilíbrio: Teoria do equilíbrio cognitivo Heider (1958). As pesquisas apontam que há maior ocorrência de tríades transitivas do que intransitivas já que as intransitivas são consideradas estressantes para os atores (equilíbrio cognitivo) ou evitam desigualdades. Outra possibilidade investigada é de que os atores haja uma tendência cognitiva para impor transitividade nas relações afiliativas para facilitar a interação.
As pesquisas sobre transitividade em tríades permitem também compreender as relações em grupos maiores e sugerem algumas implicações:
a) as ligações individuais são influenciadas por terceiros na rede. Mesmo as escolhas pessoais o são. As escolhas individuais de amizade estão em função das escolhas de amizades dos amigos.
b) Há relações entre as estruturas do nível macro do grupo e das estruturas do nível micro da tríade. A transitividade dos grupos pode estar relacionada à transitividade nas tríades e vice-versa.
2) Posição estrutural: categorização dos atores de acordo com sua equivalência estrutural na rede. Equivalência estrutural ocorre quando os atores tem as mesmas interligações na rede social.
a) a equivalência estrutural de posição pode ocorrer mesmo entre atores que não possuem ligações entre si, desde que possuem o mesmo conjunto de ligações numa posição equivalente.
b) A posição social pode ser definida em função do perfil de ligações sociais em múltiplas relações e não apenas única relação. Posição Social também está relacionada à diferentes tipos de ligações e não apenas um único tipo de ligação.
3) Laços Fracos: a inovação teórica de Granovetter (1973) apontou que os laços fracos em uma rede são de extrema importância para permitir o contato com novas informações, influência, mobilidade, oportunidades e comunicação. As ligações fortes e fechadas como a família e melhores amigos tendem a ter o mesmo tipo de informação compartilhada. Quanto mais diversificadas as ligações na rede e mais amplas, maior a possibilidade de obter novas informações e mobilidade. Esta teoria enfatiza que a posição estratégica dos atores na rede é fundamental para compreender a dinâmica interpessoal.

TRABALHO EMPÍRICO
Amizade: várias pesquisas empíricas estudaram os tipos de ligação de amizade aos longo das últimas décadas.
1950 - Proximidade como fator determinante das ligações
1961 - Similaridade de idade, "histórico" e atitudes influenciam as conexões
1991 - "Paradoxo tamanho da classe" - a maior parte das pessoas tem menos amigos do que seus amigos tem. Outro achado é que os indivíduos costumam super valorizar (self-serving) sua popularidade ao compará-la com a de seus amigos.
1992 - Igualitarismo, sociabilidade e religiosidade como fatores determinantes nas redes de amizades em grupo de adultos de 55 anos
1991 - Nas relações de trabalho, atores que possuem maior proporção de amizade além do trabalho são mais efetivas em situações de crise
2001 - Homofilia - similaridade gera conexão. As redes pessoais tendem a ser homogeneas de acordo com diferentes aspectos sociodemográficos e comportamentais. As maiores barreiras para o desenvolvimento de ligações em redes sociais são aquelas ligadas a diferenças étnicas e de raça, seguidas das diferenças de idade, religião, educação e gênero.

INFLUÊNCIA SOCIAL
A proximidade entre dois membros da rede está associada aos níveis de influencia interpessoal, sendo a proximidade definida pela medida da coesão estrutural, com ênfase na conectividade ou pela medida de equivalência dos laços interpessoais. Estas pesquisas apontam as mudanças de escolha são também fortemente influenciadas pela estrutura da rede social dos grupos, sendo que certos membros possuem maior influência do que os outros na formação de opiniões.

SUPORTE SOCIAL
Há indícios de que a rede social influencia a saúde das pessoas, especialmente na saúde mental. Pessoas com mais ligações de confiança e com percepção da disponibilidade de suporte nas redes sociais tendem a lidar melhor com as situações estressantes.
Há também pesquisas que apontam forte ligação entre o suporte da rede com a autoestima, felicidade e satisfação com a vida. Estudos apontam que a qualidade das ligações está mais correlacionada ao bem estar do que a quantidade. A quantidade de contatos com amigos é mais importante do que a com familiares por serem voluntárias e mais controláveis.
A Influência Social nas redes é multifacetada e engloba diferentes tipos como: apoio emocional, apoio financeiro...

REDE INTERNET
A Internet oferece uma gama enorme de possibilidades para os estudos de redes sociais. Há pesquisas que apontam a Internet como influenciando o senso de conectividade e de satisfação. Alguns associam o uso intenso da Internet com depressão e solidão, mas há muitos críticas pois outros estudos apontam o contrário ao constatar que a Internet permite ampliar as conexões e os laços. Faltam estudos sobre a densidade da conexões, a força dos laços e a distribuição de poder nas redes.

RELAÇÕES DIÁDICAS
Pesquisadores encontraram a influência da rede social nas relações mais íntimas entre pares em diferentes estágios, podendo ser efeitos comportamentais, cognitivos e afetivos.
Comportamental: a rede social pode oferecer "oportunidades" para que os indivíduos fiquem juntos ou barreiras que dificultam a interação.
Cognitiva: os membros da rede podem prover "informações" positivas ou negativas sobre um potencial amigo ou parceiro de forma a afetar a probabilidade de a díade ser formada.
Afetiva: Amigos e familiares influenciam as relações mais próximas no aspecto a partir das "reações" afetivas em relação aos amigos e parceiros.
As redes sociais também influenciam amplamente os relacionamentos nos âmbitos do:
- Início de relacionamentos
- Regras sociais de relacionamentos
- Díades fechadas e mudanças na composição da rede
- Relacionamentos, bem estar e estabilidade
Oportunidades e barreiras são produzidas na rede social de forma a ampliar ou evitar o aprofundamento das relações diádicas.
As informações que circulam na rede social também são vitais para a qualidade e durabilidade dos relacionamentos ao permitir a redução da incerteza.
Reações: a aprovação afetiva de pessoas significativas influencia o desenvolvimento dos relacionamentos. Interacionistas simbólicos apontam que as reações sociais formatam o senso de identidade do par. Algumas pesquisas apontam que nem sempre o suporte da rede social fortalece o relacionamento já que o "Efeito Romeu e Julieta" indica que os relacionamentos podem se fortalecer também quando há forte oposição dos atores da rede social.
Apesar de haver poucas pesquisas há indícios de que as díades fechadas e os casais também influenciam as redes sociais, intencionalmente ou não.

CONCLUSÕES
Estrutura e processos das Redes: Ainda faltam estudos mais aprofundados para apontam como os processos e a estrutura das redes influenciam os fenômenos da psicologia social. Dificuldades instrumentais e de coleta de dados sobre as redes sociais. Variedade de estratégias e dificuldade de investigação da dinâmica da estrutura das redes sociais que podem apontar com mais detalhes a a participação das redes na vida dos atores.
A sombra das redes: são poucos estudos nos efeitos negativos que as redes sociais produzem nos relacionamentos e na vida das pessoas. Ao invés de focar apenas nas oportunidades e nos efeitos de suporte das redes, é importante pesquisar mais os efeitos da negligência, da oposição e da superproteção.
O mesmo no âmbito das informações. Os efeitos de rumores e fofocas que fluem nas redes são menos estudadas do que os demais aspectos das informações.
Em relação aos aspectos afetivos há também poucos estudos sobre "inimizade" e sobre boicotes nas ligações nos relacionamentos afetivos.

AGÊNCIA
Os indivíduos influenciando suas redes. Remete ao complexo debate sobre o papel da agência humana versus a força da estrutura social influenciando os comportamentos individuais. Apesar de haver esforços de integração agência-redes, a maior parte dos estudos ainda focam no papel das redes sociais. Os indivíduos buscam influenciar suas redes para criar ou manter um ambiente de suporte. A diversidade de conceitos são estudados independentemente e é preciso uma maior integração para fortalecer as redes sociais como campo de estudos na psicologia social.

Fichamento - Redes Sociais

ALLAN, Graham. Social networks and personal communities. In A.L. Vangelisti, & D. Perlman. The Cambridge Handbook of Personal Relationships, 2006 (p.657-671).

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Por Felippe Thomaz e Rodrigo Nejm


Sobre o autor:
GRAHAM ALLAN é PhD pela Universidade de Essex, na Inglaterra. Sua área de estudo se volta à sociologia das relações informais, sociologia da amizade e sociologia comunitária, incluindo redes sociais. Atualmente é professor de sociologia na Keele University, no Reino Unido.

Objetivos do capítulo: Propõe uma reflexão acerca das redes sociais e das comunidades pessoais, trazendo à baila algumas discussões anteriores neste sentido. Evidencia metodologias adotadas em pesquisas deste campo teórico e discute algumas referências no que se refere ao conceito de modernidade tardia e os reflexos desta configuração social na constituição das redes sociais e das comunidades pessoais, contemplando também alguns tópicos relacionados à criação identitária neste contexto.

Argumentação Central: O artigo de Allan se volta à compreensão do contexto dos relacionamentos pessoais, caracterizados nas redes sociais e nas comunidades pessoais. Neste sentido, investiga como as relações construídas pelo indivíduo fazem referência a outras comunidades e, de que forma, estas emprestam uma série de modelos através dos quais estas relações se dão. Além disso, atenta aos contextos sociais e econômicos como influenciadores neste processo, implicando na configuração da rede social e na própria construção do self.

Tópico 1 - Introduction:
Inicialmente, Allan se propõe a situar o estudo das relações humanas em um sentido mais social que individual, evidenciando a mudança de perspectiva no campo de pesquisa. Parte de uma distinção entre a preocupação com as propriedades do indivíduo para a uma abordagem mais geral, examinando a interação e as relações entre as pessoas. Baseando-se nesta premissa, afirma, de antemão, que as relações não ocorrem isoladamente, mas se constituem em um contexto mais amplo –embora assuma o conceito de “contexto” como algo impreciso e generalista. Neste sentido, ressalta necessidade dos pesquisadores em considerar os diferentes níveis de contexto em que as relações se dão, no intuito de precisar de que maneira esta “constelação de relações” se configura. Ou seja, como se constituem as interações dentro de determinadas relações e como estas interações se dão entre redes sociais distintas (embora faça uma descrição do conceito de “redes” no tópico subsequente). Portanto,segundo o autor, as relações são resultado de um somatório de influências de outras relações nas quais o indivíduo está envolvido.
Em seguida parte à descrição da estrutura do trabalho. Num primeiro momento, discute as principais tradições na pesquisa acerca das redes sociais. Em seguida, atenta ao estudo do desenvolvimento de relações, revisando propostas de autores anteriores e discutindo aspectos metodológicos envolvidos nestes trabalhos. Posteriormente, concentra a análise nas maneiras pelas quais estas relações se modificam a partir das mudanças no nível individual (alterações na vida das pessoas) e como o contexto social e econômico influenciam tais relações.

Tópico 2 – Conceptualizing Network:
No presente tópico, Allan discute algumas tradições acadêmicas voltadas à investigação das redes sociais, destacando, primeiramente, a relevância da antropologia britânica (de onde, inclusive, o conceito “rede social” obteve notoriedade). Destaca a contribuição de John Barnes como o primeiro a utilizar o conceito para caracterizar a estrutura de relações existentes em determinado agrupamento social na Noruega. Ressalta ainda a tradição norteamericana através do trabalho de Bott, que pensou a análise de redes sob um viés sociológico mais matemático que antropológico (posteriormente, no artigo, apresenta ramificações do trabalho de Bott em outras correntes). Ainda derivados de uma perspectiva matemática na reflexão acerca das redes sociais, teóricos como White, Boorman e Brieger e Burt são destacados por Allan devido à exploração que fizeram das características estruturais e das propriedades das redes, no intuito de fornecer maior precisão ao recente ainda campo de estudos. A relevância destes estudos se deve, principalmente ao fato de mapear sucintamente as relações de maneira a possibilitar uma análise estrutural destas interações. Em linhas gerais, as observações permitiram afirmar que diferentes configurações de rede levam a diferentes padrões comportamentais.
Além das contribuições acima citadas, o trabalho de Barry Wellman é trazido por Allan como um dos mais importantes no campo da análise de redes na perspectiva das relações pessoais. Wellman afirmou que uma aproximação das redes é fundamental na compreensão da relevância que as relações pessoais exercem na sociedade contemporânea. Tal autor esteve particularmente centrado na investigação dos meios pelos quais os indivíduos se integram na vida social e como os aspectos de “comunidade” foram se transformando. Neste sentido, aponta para a necessidade de uma aproximação empírica das várias relações sustentadas pelos indivíduos, mapeando-as como redes que podem ser analisadas de maneira mais flexível do que a noção de comunidade. Daí emerge o termo “comunidades pessoais”, trazido por Wellman, em que a ideia básica consiste na presunção de que pessoas diferentes possuem distintas configurações de relações. Enquanto alguns estão envolvidos em “redes densas” (os participantes possuem um alto nível de interação entre si), outros fazem parte de redes com vários subconjuntos de relações (interagentes se conhecem, mas mantêm poucas relações entre si). Ainda evidencia-se as relações isoladas, nas quais os indivíduos pouco interagem. Estas classificações preliminares oferecem contribuições à compreensão das relações pessoais e a consequente integração social.
Assim como Bott, Wellman julga necessária uma aproximação da configuração das relações interpessoais mantidas nas “personal communities”. Desta maneira, investiga a configuração dos laços entre os interagentes como elemento central na compreensão deste agrupamentos. A partir daí, propõe uma diferenciação entre os tipos de rede como forma de precisar as particularidades das relações e os consequentes reflexos no comportamento dos indivíduos.  Para tanto, destaca algumas características como densidade (o número de “links” em uma rede como proporção da totalidade de conexões possíveis), o grau de agrupamento (conjuntos de indivíduos mais conectados entre si e menos conectados com outros membros da rede) e a centralidade (a extensão de links diretos entre participantes da rede). Estas classificações não se mostram preocupadas tão somente com a existência de links entre os indivíduos, mas procuram elucidar características que estas conexões possuem.

Tópico 3 – Ego-Centered Networks:
Allan inicia a discussão relativa a este tópico evidenciando, mais uma vez, características da “social network school”, da qual Wellman é expoente. Tal perspectiva teórica requer informações detalhadas sobre o alcance dos laços nos quais o indivíduo está envolvido, além de examinar as relações entre os demais participantes desta rede.
Em seguida, destaca que onde “social networks” são discutidas, o termo tende a representar o conjunto de relações sustentadas por um indivíduo. Esta noção é também chamada de personal network, ego-centered network ou ego-centric network. O conceito abarca a ideia de personal community de Wellman sem, no entanto, considerar os laços que conectam os outros na rede. Ainda no exercício de releitura de correntes teóricas anteriores, Allan apresenta quatro configurações de redes pessoais segundo o trabalho de Milardo (1992), são elas: a) rede de outros significativos (importantes para a vida do indivíduo; família, amigos próximos etc.); b) redes de troca (em uma perspectiva mais funcionalista, consiste nas relações de troca de apoio entre os indivíduos); c) redes interativas (aqueles com quem a pessoa interage com regularidade); d) redes globais (conhecidos em geral). Como Milardo observa, tais redes são construídas distintamente, sugerindo diferentes tipos de questionamento. Estas distinções preliminares fornecem apoio à compreensão das diferentes configurações de redes sociais na maneira como são desenvolvidas, mantidas e padronizadas. Geralmente, tais processos são enquadrados em uma perspectiva diádica.
Além desta abordagem, há a contribuição de Sprecher, Felmlee, Orbuch e Willetts, no tocante ao impacto das redes sobre os comportamentos dos indivíduos envolvidos no grupo. Em sua observação, distinguem três modos pelos quais as redes sociais influenciam as relações: oportunidade, informação e apoio. Através de observações em situações matrimoniais, autores observaram que relações diádicas não estão isoladas, mas enredadas em uma série de configurações que fornecem suporte a outras relações. Em suma, o conjunto de relacionamentos nos quais as pessoas se inserem influenciam  seu comportamento de maneira significativa.

Tópico 4 – The “Social Convoy” Approach:
A partir da necessidade de fazer um recorte preciso dos relacionamentos para posterior análise, Bott (1957) pensou um método, por meio de entrevista, no qual visava identificar os “conhecidos” do respondente (sem uma explanação mais aprofundada sobre a que remete o termo “conhecidos”). A partir desta investigação preliminar, voltou-se à comparação entre as propriedades que compõem os relacionamentos pessoais e ao processo de padronização das comunidades pessoais.
Allan evidencia o método de investigação adotado por Knipscheer, de Jong Gierveld, van Tilburg, and Dykstra (1995) que, de maneira geral, consistiu em uma série de questões sobre diferentes domínios de atividade social (ambiente de trabalho, doméstico, amigos etc.). Em cada um destes campos, questionou-se acerca das relações que eles mantinham. O método foi produtivo, oferecendo dados que permitiram uma ampla quantidade de estudos posteriores, incluindo a possibilidade de replicar esta metodologia em outros contextos.
Uma outra forma de investigar as dinâmicas sociais foi pensada por Antonucci e seus colegas. Denominada “modelo do comboio social” (social convoy model), este método destacou-se devido à simplicidade na coleta de dados e na influência que exerceu, principalmente no campo da gerontologia. A ideia consiste na investigação acerca do movimento do indivíduo por diversos grupos sociais ao longo da vida e os reflexos provenientes destes agrupamentos em sua conduta. Resumidamente, o modelo define três círculos concêntricos, ao centro está “você”. Os círculos mais próximos do núcleo são os laços mais íntimos (“pessoas que são difíceis de imaginar viver sem”); o círculo do meio compreende as pessoas menos próximas, no entanto, “muito importantes”; por sua vez, o círculo externo agrupa as pessoas que não são próximas e que possuem um grau de importância que permita incluir em “sua” rede. O resultado é uma representação visual dos relacionamentos estabelecidos por um indivíduo. O modelo do comboio social fornece desdobramentos interessantes a investigações futuras, no momento em que une a simplicidade de seu modo de investigação à possibilidade de questionamentos posteriores (sobretudo no âmbito dos “links”), a partir da representação visual obtida. Além disso, o método permite um acompanhamento da investigação, coletando dados em diferentes momentos no intuito de fazer uma comparação temporal no tocante aos laços mantidos pelos indivíduos.
Allan ainda ressalta que, a partir deste método, é possível questionar por que as comunidades pessoais se estruturam da maneira como o fazem, qual o papel de diferentes fatores sociais e pessoais (idade, gênero, etnia, posição social etc.) na manutenção destes círculos, quais as consequências das diversas comunidades pessoais sobre os indivíduos, de que maneira estes padrões se modificam ao longo do tempo, dentre outros tópicos passíveis de reflexão. As mudanças nos “mundos microssociais” (Pahl & Spencer, 2004) são abordadas no tópico subsequente.

Tópico 5 – Changes in Personal Network:
Este tópico ressalta a aplicabilidade do modelo do comboio social em uma perspectiva temporal, com a entrada e saída de pessoas nos “círculos” do indivíduo ao curso da vida. No entanto, aponta para algumas limitações nestes estudos, sobretudo no enquadramento funcional que adotam (na gerontologia, por exemplo, a preocupação se volta ao apoio dado aos idosos ao longo do tempo), pouco considerando as mudanças nas comunidades pessoais em si.
Allan apresenta outros estudos que observaram os impactos da “história natural” das comunidades pessoais. Eventos como mudança de casa, uma promoção no trabalho e a chegada de um novo filho, por exemplo, seriam influenciadoras de uma série de práticas sociais que, por sua vez, seriam revertidas à criação e manutenção de relações. Quem o indivíduo vê com frequência, para quem destina seu tempo e como atende aos diferentes relacionamentos são pontos enquadrados na perspectiva da natural history of personal communities.

Tópico 6 – Late Modernity and Network Change:
Considerar as circunstâncias socioeconômicas nas comunidades pessoais é fundamental para a compreensão das modificações nas práticas sociais da contemporaneidade. Trazendo o conceito de modernidade tardia, Allan afirma que as mudanças na vida pessoal dos indivíduos é algo mais comum e que esta nova dinâmica infere diretamente na maneira como este se situa e organiza em uma coletividade. As mudanças na estrutura familiar, nos vínculos empregatícios, a maior facilidade de trânsito constituem aspectos essenciais à compreensão do conceito de modernidade tardia. Neste sentido, a individualização da sociedade e a maior aceitação no rompimento de tradições oferecem mais possibilidades de escolha sobre a maneira como desejam viver. Obviamente, esta liberdade não é total, pois esbarra nas restrições econômicas e sociais vigentes.
Observa-se, neste ínterim, que a noção do indivíduo como circunscrito em diversos círculos e profundamente dependente deles se altera em sua raiz. Segundo a afirmação de Pescosolido & Rubin (2000), os indivíduos se encontram fora destes círculos e suas conexões com as instituições são múltiplas e temporárias. Esta brevidade no pertencimento às instituições refletem, a um nível mais pessoal, a própria modificação nas relações interpessoais. A flexibilidade na construção de um estilo de vida infere diretamente na possibilidade de destacar diversos elementos da identidade em contextos e tempo distintos.
Allan ainda aponta para três fatores no tocante às questões levantadas acima: a) uma vez que os indivíduos possuem maior liberdade sobre seu estilo de vida, as decisões não são tomadas isoladamente, mas mediante o apoio (ou restrição) dos conjuntos de relacionamentos nos quais está inserido; b) relacionamentos pessoais podem desempenhar um papel importante em auxiliar a adaptação das identidades (atento, pois, à classificação de identidades, no plural, conforme Allan) às diversas circunstâncias; c) é mais fácil priorizar as relações em que há um nível de similaridade entre os indivíduos, assim como estes indivíduos têm a possibilidade de destacar diferentes elementos do self a partir das “exigências” de contextos diferentes.
Allan destaca ainda a contribuição de Giddens nas observações feitas acerca dos processos de criação identitária em uma estrutura maior –que, inversamente, é sustentada por estas microrrelações estabelecidas rotineiramente.

Tópico 7 - Conclusion:
O trabalho de Graham Allan se volta, em linhas gerais, a uma releitura de estudos acerca das redes sociais e das comunidades pessoais, argumentando que as relações são padronizadas por outros relacionamentos nos quais estão envolvidas. Desta forma, não compreende as relações como constructos isolados, mas, por outro lado, como dependentes de um contexto mais amplo que se apresenta nos demais agrupamentos relacionados.
Considera os contextos sociais e econômicos da modernidade tardia e discute como as dinâmicas sociais se modificam a partir derivadas desta estrutura. Os reflexos do  rompimento de tradições nas comunidades pessoais e a própria reconfiguração das redes sociais são pontos discutidos ao longo do texto à luz de outros autores. Além disso, destaca as implicações da sociedade contemporânea no âmbito da criação identitária, fornecendo subsídio a estudos posteriores.