ALLAN, Graham. Social networks and personal communities. In A.L. Vangelisti, &
D. Perlman. The Cambridge Handbook of Personal Relationships, 2006 (p.657-671).
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Por Felippe Thomaz e Rodrigo Nejm
Sobre o autor:
GRAHAM ALLAN é PhD pela Universidade de Essex, na Inglaterra. Sua área
de estudo se volta à sociologia das relações informais, sociologia da amizade e
sociologia comunitária, incluindo redes sociais. Atualmente é professor de
sociologia na Keele University, no Reino Unido.
Objetivos do capítulo: Propõe
uma reflexão acerca das redes sociais e das comunidades pessoais, trazendo à
baila algumas discussões anteriores neste sentido. Evidencia metodologias adotadas
em pesquisas deste campo teórico e discute algumas referências no que se refere
ao conceito de modernidade tardia e os reflexos desta configuração social na
constituição das redes sociais e das comunidades pessoais, contemplando também
alguns tópicos relacionados à criação identitária neste contexto.
Argumentação
Central: O artigo de Allan se volta à compreensão do contexto dos
relacionamentos pessoais, caracterizados nas redes sociais e nas comunidades
pessoais. Neste sentido, investiga como as relações construídas pelo indivíduo
fazem referência a outras comunidades e, de que forma, estas emprestam uma
série de modelos através dos quais estas relações se dão. Além disso, atenta
aos contextos sociais e econômicos como influenciadores neste processo,
implicando na configuração da rede social e na própria construção do self.
Tópico 1 - Introduction:
Inicialmente,
Allan se propõe a situar o estudo das relações humanas em um sentido mais
social que individual, evidenciando a mudança de perspectiva no campo de
pesquisa. Parte de uma distinção entre a preocupação com as propriedades do
indivíduo para a uma abordagem mais geral, examinando a interação e as relações
entre as pessoas. Baseando-se nesta premissa, afirma, de antemão, que as
relações não ocorrem isoladamente, mas se constituem em um contexto mais amplo
–embora assuma o conceito de “contexto” como algo impreciso e generalista.
Neste sentido, ressalta necessidade dos pesquisadores em considerar os
diferentes níveis de contexto em que as relações se dão, no intuito de precisar
de que maneira esta “constelação de relações” se configura. Ou seja, como se
constituem as interações dentro de determinadas relações e como estas
interações se dão entre redes sociais distintas (embora faça uma descrição do
conceito de “redes” no tópico subsequente). Portanto,segundo o autor, as
relações são resultado de um somatório de influências de outras relações nas
quais o indivíduo está envolvido.
Em
seguida parte à descrição da estrutura do trabalho. Num primeiro momento,
discute as principais tradições na pesquisa acerca das redes sociais. Em
seguida, atenta ao estudo do desenvolvimento de relações, revisando propostas
de autores anteriores e discutindo aspectos metodológicos envolvidos nestes
trabalhos. Posteriormente, concentra a análise nas maneiras pelas quais estas
relações se modificam a partir das mudanças no nível individual (alterações na
vida das pessoas) e como o contexto social e econômico influenciam tais
relações.
Tópico 2
– Conceptualizing Network:
No
presente tópico, Allan discute algumas tradições acadêmicas voltadas à
investigação das redes sociais, destacando, primeiramente, a relevância da
antropologia britânica (de onde, inclusive, o conceito “rede social” obteve
notoriedade). Destaca a contribuição de John Barnes como o primeiro a utilizar
o conceito para caracterizar a estrutura de relações existentes em determinado
agrupamento social na Noruega. Ressalta ainda a tradição norteamericana através
do trabalho de Bott, que pensou a análise de redes sob um viés sociológico mais
matemático que antropológico (posteriormente, no artigo, apresenta ramificações
do trabalho de Bott em outras correntes). Ainda derivados de uma perspectiva
matemática na reflexão acerca das redes sociais, teóricos como White, Boorman e
Brieger e Burt são destacados por Allan devido à exploração que fizeram das
características estruturais e das propriedades das redes, no intuito de
fornecer maior precisão ao recente ainda campo de estudos. A relevância destes
estudos se deve, principalmente ao fato de mapear sucintamente as relações de
maneira a possibilitar uma análise estrutural destas interações. Em linhas
gerais, as observações permitiram afirmar que diferentes configurações de rede
levam a diferentes padrões comportamentais.
Além das
contribuições acima citadas, o trabalho de Barry Wellman é trazido por Allan
como um dos mais importantes no campo da análise de redes na perspectiva das
relações pessoais. Wellman afirmou que uma aproximação das redes é fundamental
na compreensão da relevância que as relações pessoais exercem na sociedade contemporânea.
Tal autor esteve particularmente centrado na investigação dos meios pelos quais
os indivíduos se integram na vida social e como os aspectos de “comunidade”
foram se transformando. Neste sentido, aponta para a necessidade de uma
aproximação empírica das várias relações sustentadas pelos indivíduos,
mapeando-as como redes que podem ser analisadas de maneira mais flexível do que
a noção de comunidade. Daí emerge o termo “comunidades pessoais”, trazido por
Wellman, em que a ideia básica consiste na presunção de que pessoas diferentes
possuem distintas configurações de relações. Enquanto alguns estão envolvidos
em “redes densas” (os participantes possuem um alto nível de interação entre
si), outros fazem parte de redes com vários subconjuntos de relações
(interagentes se conhecem, mas mantêm poucas relações entre si). Ainda
evidencia-se as relações isoladas, nas quais os indivíduos pouco interagem.
Estas classificações preliminares oferecem contribuições à compreensão das
relações pessoais e a consequente integração social.
Assim
como Bott, Wellman julga necessária uma aproximação da configuração das
relações interpessoais mantidas nas “personal
communities”. Desta maneira, investiga a configuração dos laços entre os
interagentes como elemento central na compreensão deste agrupamentos. A partir
daí, propõe uma diferenciação entre os tipos de rede como forma de precisar as
particularidades das relações e os consequentes reflexos no comportamento dos
indivíduos. Para tanto, destaca algumas
características como densidade (o número de “links” em uma rede como proporção
da totalidade de conexões possíveis), o grau de agrupamento (conjuntos de
indivíduos mais conectados entre si e menos conectados com outros membros da
rede) e a centralidade (a extensão de links diretos entre participantes da
rede). Estas classificações não se mostram preocupadas tão somente com a
existência de links entre os indivíduos, mas procuram elucidar características
que estas conexões possuem.
Tópico 3 – Ego-Centered Networks:
Allan inicia
a discussão relativa a este tópico evidenciando, mais uma vez, características
da “social network school”, da qual
Wellman é expoente. Tal perspectiva teórica requer informações detalhadas sobre
o alcance dos laços nos quais o indivíduo está envolvido, além de examinar as
relações entre os demais participantes desta rede.
Em
seguida, destaca que onde “social
networks” são discutidas, o termo tende a representar o conjunto de
relações sustentadas por um indivíduo. Esta noção é também chamada de personal network, ego-centered network ou ego-centric
network. O conceito abarca a ideia de personal
community de Wellman sem, no entanto, considerar os laços que conectam os
outros na rede. Ainda no exercício de releitura de correntes teóricas
anteriores, Allan apresenta quatro configurações de redes pessoais segundo o
trabalho de Milardo (1992), são elas: a) rede de outros significativos
(importantes para a vida do indivíduo; família, amigos próximos etc.); b) redes
de troca (em uma perspectiva mais funcionalista, consiste nas relações de troca
de apoio entre os indivíduos); c) redes interativas (aqueles com quem a pessoa
interage com regularidade); d) redes globais (conhecidos em geral). Como
Milardo observa, tais redes são construídas distintamente, sugerindo diferentes
tipos de questionamento. Estas distinções preliminares fornecem apoio à
compreensão das diferentes configurações de redes sociais na maneira como são
desenvolvidas, mantidas e padronizadas. Geralmente, tais processos são
enquadrados em uma perspectiva diádica.
Além
desta abordagem, há a contribuição de Sprecher, Felmlee, Orbuch e Willetts, no
tocante ao impacto das redes sobre os comportamentos dos indivíduos envolvidos
no grupo. Em sua observação, distinguem três modos pelos quais as redes sociais
influenciam as relações: oportunidade, informação e apoio. Através de
observações em situações matrimoniais, autores observaram que relações diádicas
não estão isoladas, mas enredadas em uma série de configurações que fornecem
suporte a outras relações. Em suma, o conjunto de relacionamentos nos quais as
pessoas se inserem influenciam seu
comportamento de maneira significativa.
Tópico 4 –
The “Social Convoy” Approach:
A partir
da necessidade de fazer um recorte preciso dos relacionamentos para posterior
análise, Bott (1957) pensou um método, por meio de entrevista, no qual visava
identificar os “conhecidos” do respondente (sem uma explanação mais aprofundada
sobre a que remete o termo “conhecidos”). A partir desta investigação
preliminar, voltou-se à comparação entre as propriedades que compõem os
relacionamentos pessoais e ao processo de padronização das comunidades
pessoais.
Allan
evidencia o método de investigação adotado por Knipscheer, de Jong Gierveld,
van Tilburg, and Dykstra (1995) que, de maneira geral, consistiu em uma série
de questões sobre diferentes domínios de atividade social (ambiente de
trabalho, doméstico, amigos etc.). Em cada um destes campos, questionou-se
acerca das relações que eles mantinham. O método foi produtivo, oferecendo
dados que permitiram uma ampla quantidade de estudos posteriores, incluindo a
possibilidade de replicar esta metodologia em outros contextos.
Uma outra
forma de investigar as dinâmicas sociais foi pensada por Antonucci e seus
colegas. Denominada “modelo do comboio social” (social convoy model), este método destacou-se devido à simplicidade
na coleta de dados e na influência que exerceu, principalmente no campo da
gerontologia. A ideia consiste na investigação acerca do movimento do indivíduo
por diversos grupos sociais ao longo da vida e os reflexos provenientes destes
agrupamentos em sua conduta. Resumidamente, o modelo define três círculos
concêntricos, ao centro está “você”. Os círculos mais próximos do núcleo são os
laços mais íntimos (“pessoas que são difíceis de imaginar viver sem”); o
círculo do meio compreende as pessoas menos próximas, no entanto, “muito
importantes”; por sua vez, o círculo externo agrupa as pessoas que não são
próximas e que possuem um grau de importância que permita incluir em “sua” rede.
O resultado é uma representação visual dos relacionamentos estabelecidos por um
indivíduo. O modelo do comboio social fornece desdobramentos interessantes a
investigações futuras, no momento em que une a simplicidade de seu modo de
investigação à possibilidade de questionamentos posteriores (sobretudo no
âmbito dos “links”), a partir da representação visual obtida. Além disso, o
método permite um acompanhamento da investigação, coletando dados em diferentes
momentos no intuito de fazer uma comparação temporal no tocante aos laços
mantidos pelos indivíduos.
Allan
ainda ressalta que, a partir deste método, é possível questionar por que as
comunidades pessoais se estruturam da maneira como o fazem, qual o papel de
diferentes fatores sociais e pessoais (idade, gênero, etnia, posição social
etc.) na manutenção destes círculos, quais as consequências das diversas
comunidades pessoais sobre os indivíduos, de que maneira estes padrões se
modificam ao longo do tempo, dentre outros tópicos passíveis de reflexão. As mudanças
nos “mundos microssociais” (Pahl & Spencer, 2004) são abordadas no tópico
subsequente.
Tópico 5
– Changes in Personal Network:
Este
tópico ressalta a aplicabilidade do modelo do comboio social em uma perspectiva
temporal, com a entrada e saída de pessoas nos “círculos” do indivíduo ao curso
da vida. No entanto, aponta para algumas limitações nestes estudos, sobretudo
no enquadramento funcional que adotam (na gerontologia, por exemplo, a
preocupação se volta ao apoio dado aos idosos ao longo do tempo), pouco
considerando as mudanças nas comunidades pessoais em si.
Allan
apresenta outros estudos que observaram os impactos da “história natural” das
comunidades pessoais. Eventos como mudança de casa, uma promoção no trabalho e
a chegada de um novo filho, por exemplo, seriam influenciadoras de uma série de
práticas sociais que, por sua vez, seriam revertidas à criação e manutenção de
relações. Quem o indivíduo vê com frequência, para quem destina seu tempo e
como atende aos diferentes relacionamentos são pontos enquadrados na
perspectiva da natural history of
personal communities.
Tópico 6
– Late Modernity and Network Change:
Considerar
as circunstâncias socioeconômicas nas comunidades pessoais é fundamental para a
compreensão das modificações nas práticas sociais da contemporaneidade.
Trazendo o conceito de modernidade tardia, Allan afirma que as mudanças na vida
pessoal dos indivíduos é algo mais comum e que esta nova dinâmica infere
diretamente na maneira como este se situa e organiza em uma coletividade. As
mudanças na estrutura familiar, nos vínculos empregatícios, a maior facilidade
de trânsito constituem aspectos essenciais à compreensão do conceito de
modernidade tardia. Neste sentido, a individualização da sociedade e a maior
aceitação no rompimento de tradições oferecem mais possibilidades de escolha
sobre a maneira como desejam viver. Obviamente, esta liberdade não é total,
pois esbarra nas restrições econômicas e sociais vigentes.
Observa-se,
neste ínterim, que a noção do indivíduo como circunscrito em diversos círculos
e profundamente dependente deles se altera em sua raiz. Segundo a afirmação de
Pescosolido & Rubin (2000), os indivíduos se encontram fora destes círculos
e suas conexões com as instituições são múltiplas e temporárias. Esta brevidade
no pertencimento às instituições refletem, a um nível mais pessoal, a própria
modificação nas relações interpessoais. A flexibilidade na construção de um
estilo de vida infere diretamente na possibilidade de destacar diversos
elementos da identidade em contextos e tempo distintos.
Allan
ainda aponta para três fatores no tocante às questões levantadas acima: a) uma
vez que os indivíduos possuem maior liberdade sobre seu estilo de vida, as
decisões não são tomadas isoladamente, mas mediante o apoio (ou restrição) dos
conjuntos de relacionamentos nos quais está inserido; b) relacionamentos
pessoais podem desempenhar um papel importante em auxiliar a adaptação das
identidades (atento, pois, à classificação de identidades, no plural, conforme
Allan) às diversas circunstâncias; c) é mais fácil priorizar as relações em que
há um nível de similaridade entre os indivíduos, assim como estes indivíduos
têm a possibilidade de destacar diferentes elementos do self a partir das
“exigências” de contextos diferentes.
Allan
destaca ainda a contribuição de Giddens nas observações feitas acerca dos
processos de criação identitária em uma estrutura maior –que, inversamente, é
sustentada por estas microrrelações estabelecidas rotineiramente.
Tópico 7
- Conclusion:
O trabalho de Graham Allan se
volta, em linhas gerais, a uma releitura de estudos acerca das redes sociais e
das comunidades pessoais, argumentando que as relações são padronizadas por
outros relacionamentos nos quais estão envolvidas. Desta forma, não compreende
as relações como constructos isolados, mas, por outro lado, como dependentes de
um contexto mais amplo que se apresenta nos demais agrupamentos relacionados.
Considera os contextos sociais e econômicos da
modernidade tardia e discute como as dinâmicas sociais se modificam a partir
derivadas desta estrutura. Os reflexos do rompimento de tradições nas
comunidades pessoais e a própria reconfiguração das redes sociais são pontos
discutidos ao longo do texto à luz de outros autores. Além disso, destaca as
implicações da sociedade contemporânea no âmbito da criação identitária,
fornecendo subsídio a estudos posteriores.
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