sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fichamento - Atitudes

Augoustinos, M. ; Walker, I. (2007). Social Cognition – na integrated introduction (p.112-147). London: Sage Publications

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Por Gilcimar Santos Dantas



Sobre os autores:
Martha Augoustinos é PhD pela Universidade de Adelaide, membro da Sociedade Australiana de Psicologia e da Sociedade Astro asiática de psicólogos sociais e suas áreas de interesse são psicologia social e discurso.

Iain Walker é professor da Universidade de Murdoch. Sua ares de interesse são mudança de comportamento, etnia e migração.

Capítilo 4 - Atitudes

Objetivos do capítulo
Trabalhar com o conceito de atitude, levando em consideração a sua definição, sob quais condições este fenômeno costuma acontecer e qual é a sua função. Neste sentido, o constructo atitude é discutido à luz de três abordagens da psicologia social que são a psicologia social psicológica, a representação social e a psicologia social discursiva.

Argumentação central
A tradição da Psicologia social trabalha com as atitudes são estruturas cognitivas estáveis com a função de avaliar determinados objetos, pessoas ou demais questões. As atitudes também tem uma função de estabilização, monitoramento e de alocação do indivíduo no mundo social. Recentes estudos sobre automaticidade  tem demonstrado que certas atitude podem emergir de maneira rápida e intencional e os estudos sobre a relação entre atitudes e comportamento ainda é um tópico que levanta questões entre os psicólogos da cognição social. Em contraste a esta acepção das atitudes, a representação social afirma que ao invés de estudar as atitudes a partir de um prisma individualista, deve-se levar em consideração saberes que são compartilhados pelos grupos sociais e que determinadas avaliações, ao invés de partir de fatores internos, também emergem da percepção de características particulares do objeto alvo. Para a teoria das representações sociais, sem esse compartilhamento parte dessas avaliações não aconteceriam, pois não haveria meios de as pessoas decodificarem os sentidos de uma dada avaliação. Já a psicologia social discursiva, afirma que as falas são contraditórias, e inconsistentes. Neste sentido os fenômenos de avaliação (atitudes) não podem ser captados, simplesmente, pelos métodos quantitativos ou qualitativos tradicionais, pois os discursos são práticas sociais e eles emergem a partir de um determinado contexto.
Definição de atitude
O termo atitude parece ter perdido o seu verdadeiro significado ao longo do tempo, ao passo que as pessoas se referem, nos dias de hoje, ao termo atitude como se estivessem falando a algo concreto. Hoje, os indivíduos ao afirmarem que alguém tem uma atitude, estes o fazem como se estivessem falando a respeito de um braço ou qualquer outro membro do corpo humano. O termo atitude adentrou a língua inglesa no século XVIII, através do sociólogo Herbert Spencer e do biólogo Charles Darwin e no século XIX passou a ser usado para se referir a um estado fisiológico ou a uma orientação física. De todo modo, o termo atitude nem sempre foi uma propriedade do senso comum, como nos dias de hoje e apesar de este ser o tópico mais estudado na psicologia social, o seu significado ainda permanece vago. Neste sentido, para psicologia social, a atitude é, antes de mais nada, uma avaliação que carrega aquilo que o indivíduo pensa a respeito tanto de um objeto concreto e tangível, quanto de um objeto abstrato e intangível. A atitude se expressa pela linguagem a partir de termos como “gosto/não gosto, “bom/ruim”, etc. As atitudes possuem alvos específicos e emergirá diante de um objeto que seja relevante, seja ele uma pessoa ou qualquer outro ente e acontecerá de maneira automática. Apesar não ser impossível a sua mudança (através de novas experiências) as atitudes não são necessariamente transitórias, pois se referem a um denso corpo de conhecimento e experiência a respeito de um determinado objeto.

Tópico 1- A perspectiva da cognição Social
O modelo ABC das atitudes de Stemming, afirma que existem três classes de resposta a um determinado objeto, que são a cognitiva, a afetiva e a comportamental. A cognitiva diz respeito a uma resposta a um determinado estímulo a partir de uma determinada crença e de conhecimentos que uma pessoa possui sobre um objeto. A classe afetiva se refere a como a pessoa se sente a respeito de tal objeto e a classe comportamental é a que engloba os comportamentos que alguém expressa diante do objeto alvo da atitude.

Estrutura das atitudes
As atitudes estão organizadas a partir da estrutura intra atitudinal e inter atitudinal.  A primeira engloba a relação entre os componentes afetivos, cognitivos e, talvez, comportamentais e a segunda trabalha organizando esses mesmos componentes numa dimensão de diferentes atitudes frente a diferentes objetos.  Três aspectos das atitudes, decorrentes das estruturas intra atitudinal e inter atitudinal são conhecidas como acessibilidade, ativação e ambiguidade. A acessibilidade diz respeito ao quão fácil uma atitude pode ser evocada da memória e utilizada levando em consideração a velocidade com que a atitude é acessada a partir de aspectos do contexto. Para que o fenômeno da acessibilidade ocorra, a atitude deve estar disponível na estrutura cognitiva da pessoa.a diferença no grau de acessibilidade entre uma pessoa e outra é determinado pela força da relação entre a atitude e o seu objeto de avaliação. Há ativação de uma dada atitude diante de uma dada situação. Neste sentido, a atitude é concebida como nodos na memória, ativados a partir de uma rede associativa e quanto mais frequente uma conexão é experienciada, mais forte esta se torna. Então, se a associação entre o objeto e a sua avaliação é forte o suficiente, o simples fato de notar o objeto terá a avaliação ativada. Às vezes esta relação é tão forte que apenas pensar no objeto resulta em uma avaliação, mesmo sem a intenção expressa em fazê-la. Este fenômeno é conhecido como automaticidade ou atitude implícita, que se refere à atitude que é ativada sem que o indivíduo tenha noção ou note, conscientemente, que está realizando uma avaliação está sendo feita por ele. Alguns psicólogos afirmam que a atitude implícita ou automática é mais genuína, pois a partir dela é possível prever comportamentos controlados, que são aqueles comportamentos que o indivíduo defere de modo consciente. A ambivalência da atitude acontece quando se tem avaliações tanto positivas quanto negativas a respeito de um mesmo objeto. Esta ambivalência é mais provável de acontecer diante de alvos mais complexos e qual se tem vários encontros (como grupos de pessoas) do que diante de alvos mais simples (como objetos simples). Estas atitude são mais instáveis porque vai depender de quais elementos da atitude estarão disponíveis no momento da avaliação.

Alguns pesquisadores afirmam que as atitudes possuem uma estrutura vertical decorrente de uma rede associativa entre os nodos da atitude. Entretanto, outros pesquisadores afirmam que, na verdade, existe uma relação horizontal entre as atitudes. De todo modo, não parece haver conflitos entre estas duas teorizações, pois é plausível imaginar tanto relações associativas quanto uma estrutura horizontal. Para Kerlinger, as atitudes podem ser organizadas de um modo bipolar no qual os critérios de avaliação são sempre neutros ou positivos e nunca negativos. Os níveis de critério para as avaliações tipicamente produzem, a partir de uma série de fatores de primeira ordem, como religiosidade, igualdade racial, direitos individuais, etc. Quando estes fatores estão sendo analisados, eles produzem fatores de segunda ordem que são as ideologias que são compartilhadas e produto da relação social.

Função das atitudes
Segundo Katz (1960), as atitudes possuem algumas funções. A primeira seria a função de conhecimento a qual nos permite entender o mundo ao nos redor. Neste caso a atitude funcionaria como uma representação de um determinado objeto na memória e junto a esta representação estaria um resumo avaliativo a respeito do objeto e uma estrutura de conhecimento a respeito deste mesmo objeto. A outra função engloba relação utilitarista das atitudes na qual se pode prever recompensas e punições. Esta última função mostram a flexibilidade das atitudes, pois reflete o quanto alguém pode alterar as suas atitudes dependendo do contexto. A terceira função é função de expressão que pode ir além de uma avaliação pública sobre a crença de alguém. Esta atitude se reflete através do uso de um uniforme de time de futebol ou ao uso de alguma marca. Neste sentido, não parece haver outra função para esta atitude senão expressar alguma adesão de alguém a alguma coisa. A última função se refere á defesa do ego que é relativa a atitudes profundamente internalizadas e de difícil mudança. Esta função se faz presente quando alguém, inconscientemente, se nega a algum aspecto que faz parte do seu próprio eu. Smith (1956) dá três funções às atitudes que são a de avaliação de objeto, a de externalização e a de ajustamento social. Essas três funções correspondem respectivamente às funções de conhecimento, de defesa do ego e utilitária trabalhadas por Katz. Mais tarde, Herek (1986, 1987) reanalisa as funções da atitude e chega a dois tipos delas que são as funções avaliativas e expressivas. A primeira trata-se de atitudes nas quais o seu objeto tem um fim em sim mesmo e a função das atitudes é permitir que o indivíduo acesse esse tal objeto. A segunda função dá um sentindo a esse fim promovendo apoio social, aumentando a autoestima ou diminuindo a ansiedade. A atitude expressiva pode ser experiencial e específica (restrita a um único objeto), experiencial e esquemática (baseada na experiência com um único objeto, mas generalizada para uma classe de outros objetos) ou antecipatória (baseada mais em expectativas do que na experiência direta).

Relação entre atitudes e comportamentos
A relação entre atitude e comportamento vem sendo alvo de muitos trabalhos entre os psicólogos sociais que tentam saber se esta relação é forte ou não e os que tentam formular e testar modelos mais elaborados para esta relação. Muitas variáveis influenciam a relação entre atitudes e comportamentos, das quais algumas são citadas. A primeira afirma que relações entre atitudes e comportamentos formadas através de experiências diretas por conta de tais atitudes serem mantidas com mais clareza, confiança e certeza, por serem mais acessíveis e automaticamente ativadas diante de determinado objeto. A segunda diz que atitudes que são mais estáveis são mostrarão maior consistência com relação aos comportamentos quando comparadas com atitudes instáveis. A terceira e última sugere que aqueles que possuem uma maior noção das suas atitudes, tem uma maior possibilidade de manter consistência entre as suas atitudes e comportamentos, pois aqueles que se monitoram mais mantém uma menor relação entre as suas atitudes e os seus comportamentos em comparação àquelas que se monitoram menos. De todo modo, enquanto frágeis evidências mostram o quanto comportamentos são conduzidos por atitudes, fortes evidência tem demonstrado que atitudes são seguidas de comportamentos.

Ainda sobre a relação entre comportamento e atitude, a teoria da dissonância cognitiva, desenvolvida por Festinger (1957), sugere que se uma pessoa tem duas cognições que são psicologicamente discrepantes e se essa discrepância for desconfortável, a pessoa será motivada a reduzir essa dissonância. Essa redução consistirá em mudar uma ou as duas cognições. Por exemplo, saber que fumar faz mal á saúde e, ainda assim, gostar de fumar pode levar a pessoa a afirmar que isso é uma invenção para discriminar os fumantes. Ou seja, a partir da teoria da dissonância cognitiva, pode-se dizer que a pessoa se dedica a alterar as suas atitudes para estas corresponderem ao seu comportamento. Questionando a teoria da dissonância cognitiva, surge a teoria da auto percepção (Bem, 1967, 1972) que explica os mesmos eventos relatados pela teoria da dissonância, mas sem se crer que o fenômeno do ajuste da atitude ocorra de modo tão elaborado. Segundo esta teoria, as pessoas se focam em fenômenos internos (suas próprias atitudes) assim como se focam em fenômenos externos (as atitudes doa outros), fazendo um processo de atribuição. Neste sentido, se a pessoa entende que a sua atitude está fora da latitude de aceitação, ela tenta corrigi-la para que volte a esta latitude. A teoria da ação racionalizada (Fishbein e Ajzen, 1975) sugere que atitudes não predizem comportamentos, mas sim intenções comportamentais, pois são estas intenções (chamadas de normas subjetivas) que predizem os comportamentos. O argumento dessa teoria é que o indivíduo age levando em consideração a maneira a qual os outros acham que ele devia agir. Neste caso, a atitude funcionaria como um regulador do comportamento. Entre 1988 e 1991, Ajzen e Madden revisaram o modelo acima citado e concluíram que o comportamento nem sempre está submetido ao controle volitivo. Esta teoria – teoria do comportamento planejado – assume que, além do comportamento ser também regulado por normas sociais, há também a percepção do ator do comportamento que vê muitas vezes certos comportamentos como mais fáceis de serem desempenhados e outros mais difíceis. Isso pode acarretar na realização ou não do comportamento, em detrimento de certas normas.

Atitudes e identidades sociais
Além da análise das funções das atitudes enquanto objetos de julgamento na relação com o comportamento, as atitudes também são entendidas como meios utilizados para nortear os indivíduos no intuito de que estes possam se colocar diante de outras pessoas no ambiente social. Neste caso, a expressão de valores, através das atitudes, é necessária para a coesão social e avaliação. A teoria do equilíbrio de Heider (1958) afirma que a eficiência de uma atitude e avaliada a partir da comparação com as atitudes de pessoas que os indivíduos se identificam ou não. Aqueles com quem as pessoas se identificam possuem as atitudes que os indivíduos desejam manter, enquanto que aqueles com quem os indivíduos não se identificam possuem atitudes que não lhes servem de referência. Tajfel (1982), afirma que esta relação com as atitudes é o que forma grupos psicológicos de pessoas que compartilham uma determinada visão de mundo e que o divide entre “nós” e “eles”. Esta perspectiva de Tajfel também é conhecida como teoria da categorização social. Certas atitudes se tornam mais extremas quando o portador de certa atitude encontra outros indivíduos que compartilham das mesmas avaliações (positivas ou negativas) a respeito de um mesmo objeto. Este fenômeno recebe o nome de efeito de polarização do grupo. Este efeito está lastreado na noção de que a discussão de grupo provê uma nova fonte de argumentos persuasivos a favor da ideia do grupo ou informações a respeito dos pontos de vista de outros grupos, o que serve de comparação. Muitos pesquisadores tem argumentado que diferentes identidades sociais estão associadas a diferentes normas de atitude e normas comportamentais. Assim, espera-se que normas sociais influenciem comportamentos quando as identidades sociais, influenciadas por esses comportamentos, são salientes em determinadas instâncias. Ou seja, um determinado valor (ou atitude), que conduz a um determinado comportamento, vai depender do quanto uma pessoa se identifica com o grupo que possui essas mesmas normas.

Tópico 2 – Atitudes e representações sociais
A psicologia social de base cognitiva tem tratado as atitudes como um constructo de ordem individual, tratando-a como um estado cognitivo interno, de estado afetivo ou de intenções comportamentais e predisposições. Historiadores da psicologia tem atribuído esta individualização da psicologia à influente contribuição de Gordon Allport no “Handbook of Social Psychology” quando define uma atitude como disposição a responder a um estímulo no intuito de explicar diferenças no comportamento em situações objetivamente similares. Numa direção contaria a esta perspectiva, a Psicologia das representações sociais é teorizada como estruturas cognitivas relacionadas a teorias ou redes de conhecimento que são, por sua vez, mais do que avaliações ou julgamentos objetos específicos. Elas são formas de conhecimento de onde emergem avaliações e julgamentos mais específicos. Neste caso, Moliner e Tafane (1997) afirmam que o conhecimento compartilhado, concebido pela perspectiva da representação social, provê um meio de expressar julgamentos de avaliação que parecem estar mais embasados nas características objetivas do alvo do que em opiniões objetivas feitas pelo indivíduo que faz a avaliação. Uma importante função das representações sociais na atitude é que elas são um importante mecanismo de comunicação e transmissão de crenças social e conhecimento. A expressão pública de uma atitude por um indivíduo, normalmente, provoca uma reação, essa reação conduz o indivíduo e o público a um diálogo retórico no qual pontos de vista, crenças, dúvidas e discordâncias são compartilhados e debatidos forçando o indivíduo a corrigir determinadas discrepâncias, mesmo que não seja a sua intenção. Uma outra função das crenças na representação social é que elas desempenham um papel justificatório na orientação do indivíduo no mundo social. Uma atitude de desdém para com uma pessoa pobre não só tem a utilidade de posicionar o indivíduo diante desse objeto particular de avaliação como também pode servir para justificar a posição do outro em desvantagem e manter a posição do indivíduo, intacta, num mundo de vantagens.  Outro fator importante nas representações sociais é permitir que os membros de um grupo identifiquem tipos particulares de afirmações e comportamentos e formem avaliações. Dentro da perspectiva das representações sociais, sem o compartilhamento de um saber muitos dos meios pelos quais os indivíduos se comunicam não existiriam, pois não seria possível de as pessoas entenderem uma as outras.

Tópico 3 – Psicologia discursiva e atitudes

A psicologia social discursiva, também em contraste às questões da psicologia social cognitiva, argumenta que os psicólogos sociais deveriam se focar nas conversas que ocorrem de modo natural ou discursos no intuito de entender como as avaliações são construídas e utilizadas no cotidiano. Os psicólogos sociais discursivos percebem que ao longo das falas das pessoas a respeito do seu mundo social, expressam visões fragmentadas, inconsistentes e contraditórias e essas visões não costumam ser captadas pelos métodos quantitativos nem qualitativos que buscam pela coerência e pela consistência nas atitudes das pessoas. Esta perspectiva sugere que os pontos de vista e opiniões de uma pessoa depende de um contexto discursivo particular no qual estas avaliações são construídas e para o que eles servem. Vendo desta maneira, as falas e os discursos são vistos como práticas sociais e são analisadas com o objetivo de mostrar como várias fontes linguísticas e métodos retóricos constituem construções particulares da realidade. Nas conversações ordinárias, as avaliações são estruturadas de maneira retórica e se realizam no intuito de que os indivíduos desempenhem ações e funções que as justifiquem, explicando-as e defendendo-as. Na psicologia social discursiva, a organização retórica e a função social das avaliações são o principal foco dos psicólogos.



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