domingo, 1 de abril de 2012

Fichamento - Percepção Social

Augostinos, M; Walker, I. (2007). Social Cognition – an integrated introduction (p. 67-111). London: Sage Publications


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Por Brena Carvalho


Sobre os autores:

Martha Augostinos: Co-diretora no Fay Gale Centre for Research on Gender. Seu foco de estudo inclui a psicologia social e o discurso

Iain Walker: Diretor Sênior de Pesquisa em COMPAS. Tem como foco os estudos em identidade e etnia, migração e globalização.

Objetivos do capítulo: O capítulo busca examinar conceitos centrais aos estudos em Cognição Social e a forma como eles têm sido usados nas pesquisas a respeito da percepção social. Além disso, examina como teorias alternativas (Identidades Sociais, Representações Sociais e Psicologia Discursiva) têm compreendido o fenômeno da percepção social, indicando as semelhanças e divergências conceituais e metodológicas que as mesmas apresentam em relação às propostas da Teoria da Cognição Social.


Questão Central: Como lidamos com a enorme quantidade de informações que recebemos no nosso dia-a-dia? Como as pessoas percebem e processam informações sociais? Essas são questões em torno das quais o capítulo se organiza na tentativa de demonstrar como as teorias concebem e respondem o problema.


Tópico 1 – Cognição Social: Os estudos da Cognição Social a respeito da percepção social partem do pressuposto de que as pessoas apreendem e dão sentido à complexidade das informações sociais simplificando e organizando-as em estruturas cognitivas de significado, os esquemas. Considerados como uma espécie de atalho mental, os esquemas contêm conhecimentos e expectativas gerais sobre o mundo, são apreendidos através da experiência ou socialização, nos fornecem algum senso de predição e controle sobre o mundo social, sendo funcionais e essenciais para o nosso bem-estar. Embora todos os esquemas sirvam a funções similares (codificação, evocação de informações e inferências sobre informações faltantes), podem ser divididos de acordo com suas quatro áreas de aplicação empírica: esquemas de pessoas, esquemas do self, esquema de eventos e esquemas de papéis. Os estereótipos, concebidos como esquemas de representações compartilhadas sobre grupos sociais e seus membros, têm sido um constante alvo de estudos, envolvendo principalmente questões como gênero e raça. Dentre outras características dos esquemas, os autores indicam: (1) o funcionamento destes como forma de poupar energia e facilitar a memorização; (2) o fato de serem estruturas afetivas e valorativas; e (3) organizadas hierarquicamente e (4) consideravelmente estáveis.
Um dos processos centrais dentro da teoria dos esquemas corresponde à categorização. Este se refere à forma como identificamos estímulos e os agrupamos como membros de uma categoria, impondo ordem na complexidade do mundo. Por sua vez, as categorias se organizam em torno de um protótipo (espécie de tendência central), usados como referência na comparação e categorização de novos estímulos. Um dos problemas da categorização apontados pelos autores corresponde à possibilidade de realização de julgamentos enviesados, uma vez que ao preencher os dados que estão faltando na informação social a partir de conhecimentos pré-existentes, podemos fazê-lo de maneira equivocada.
Muitos estudos têm sido feitos no intuito de compreender os processos de ativação categorial. Os determinantes da ativação de determinadas categorias, ou as situações nas quais a categorização aparece como um processo incondicional são enigmas ainda presentes na Cognição Social. Alguns trabalhos têm indicado o conteúdo da categoria e a sua acessibilidade como índices de ativação das mesmas, e outros têm demonstrado que quando o estímulo desencadeante está fora da consciência, ou parece irrelevante, o processo de categorização ocorre de maneira mais incondicional. Uma das críticas feitas às pesquisas realizadas nessa área (processos de automatismo), diz respeito ao uso quase exclusivo, nas estratégias metodológicas, de materiais de estímulos verbais para estudar a ativação das categorias. Esse contexto parece não corresponder às situações reais, onde as interações sociais compreendem a percepção de outras pistas, a exemplo das visuais e contextuais. Além disso, questiona-se o fato de não haver conseqüências sérias para os participantes das pesquisas em laboratórios quando esses ativam estereótipos e realizam julgamentos. Nesse sentido, esses estudos carecem da compreensão a respeito dos objetivos motivacionais como moderadores do processo de percepção social.


Tópico 2 – Teoria das Identidades Sociais: A teoria das Identidades Sociais, segundo os autores, não concebe a categorização como um processo que simplifica a percepção, mas como algo que a enriquece e elabora. A categorização é vista dessa forma, como uma atividade de dar sentido e que depende das crenças anteriores para que as categorias sejam preenchidas de significado e relevância. Os estereótipos são vistos como representações psicológicas válidas. Os teóricos dessa linha partem do pressuposto de que a percepção baseada no grupo é tão psicologicamente e cognitivamente válida, quanto a percepção baseada no indivíduo. Assim, a estereotipização é vista como psicologicamente racional, válida e razoável, capaz de fornecer uma percepção social verídica. É compreendida como um processo fluido, dinâmico e que depende do contexto. No entanto, é feita uma diferenciação entre o estereótipos e a estereotipização. Os primeiros podem ser ruins, e sendo ruins, devem ser condenados, mas a estereotipização é concebida como um processo cognitivo e psicológico que faz um trabalho cognitivo essencial, localizando os indivíduos e grupos da sociedade.


Tópico 3 – Teoria das Representações Sociais: A teoria das Representações Sociais é trazida no texto pelos autores, como um campo capaz de fornecer a dimensão social para as pesquisas em Cognição Social. Estas (as representações) guardam algumas similaridades com o conceito dos esquemas, uma vez que podem configurar-se como conhecimento social internalizado que guia e facilita o processamento da informação social. São concebidas como traços de memória com estrutura organizacional interna própria e que incluem dimensões afetivas, valorativas, além de um conteúdo normativo. Apesar de guardar tais semelhanças, as representações procuram compreender o funcionamento individual, social e psicológico numa relação mais próxima com os processos sociais e coletivos. Assim, os autores caracterizam o conceito de ancoragem (processo através do qual o novo estímulo é considerado familiar através de comparações com a categoria) como um processo social, uma vez que as categorias de comparação são vistas como emergindo da vida cultural e social do indivíduo. As representações são difundidas, coletivas e pertencentes ao senso comum. Organizam-se ao redor de um núcleo e contam com elementos periféricos. O primeiro guarda as bases afetivas e cognitivas para a compreensão da nova informação, é estável e invariável nas situações; os elementos periféricos por sua vez, são vistos como mais flexíveis, capazes de se adaptar às variações situacionais. Segundo Abric (1984), a possibilidade de mudança de uma representação social inclui tanto uma ameaça radical ao centro da estrutura (o que altera de fato toda a natureza da representação), quanto alterações mais superficiais localizadas nos significados e valores dos elementos periféricos. No que se refere às possibilidades de integração entre a teoria dos esquemas e das representações sociais, os autores afirmam que existem posições contrastantes e que é preciso ter cuidado ao usar metodologias quantitativas estatísticas tradicionais no estudo das representações, visto que tais metodologias trazem o risco de objetivar o conceito das representações sociais, descartando seus aspectos mais interativos e dinâmicos.


Tópico 4 – Teoria da Psicologia Discursiva: A Teoria da Psicologia Discursiva introduz uma nova perspectiva ao estudo da categorização. Embora não neguem que as pessoas usem categorias sociais para falar sobre o mundo, os teóricos desta linha desafiam a visão de que as categorias são entidades rígidas, definidas a priori. Para eles, as categorias não devem ser vistas como processos cognitivos localizados na cabeça dos indivíduos, nem como estruturas estáticas organizadas ao redor de um protótipo, mas sim como algo constituído no discurso. Interessam-se por saber de que forma as categorias são articuladas flexivelmente em determinados cursos de uma conversa e escrita, como se tornam construídas em diferentes contextos sociais. A categorização é vista portanto, como uma prática discursiva; as categorias por sua vez, adquirem dimensões variáveis e flexíveis a depender da sua função que também é variável e contextual. Assim, os autores não descartam a noção de que a categorização seja inevitável, mas indicam que não há nada de inevitável nas categorias, as quais podem divergir de acordo com as circunstâncias, sendo moldadas pelas contingências. São construções estratégicas que servem para uma ideologia local e fins retóricos.


Tópico 5 – Conclusão e Implicações Teóricas: Todas as teorias elencadas parecem concordar com a necessidade que os indivíduos possuem de criar categorias para perceber e compreender o ambiente social. Ainda que algumas vejam esse processo como (1) uma forma individual de simplificar a realidade, (2) de preencher e dar significado aos novos estímulos sociais; (3) como conhecimentos compartilhados socialmente; ou (3) como práticas discursivas, fica evidente a importância dos estudos relacionados ao tema, dadas as implicações das categorias (seja quais forem suas definições teóricas) nos comportamentos e interações sociais.
A noção da importância de considerar o contexto social no qual a percepção se insere aparece como uma necessidade cada vez maior para os estudos na área, assim como a consideração dos efeitos motivacionais enquanto moderadores da percepção social. As estratégias metodológicas para a realização de pesquisas na área incluem possibilidades diversas: estudos quantitativos, qualitativos, experimentais ou não, desde que respeitadas a natureza epistemológica e a amplitude dos conceitos de cada teoria.

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